Está lançada a versão 2008 do Prêmio Lanbraille
A versão 2008
do Prêmio Lanbraille
Se você
conhece uma Lan House, diga-lhe para incluir um deficiente visual na equipe e se
candidatar ao mais abrangente sistema de premiação do país: Prêmio Lanbraille
2008
Finalmente muita gente já percebeu. Um dos principais pontos de acesso à
internet no Brasil são as chamadas "lan-houses". Quem não sabe o que é não tem
desculpa: é só andar atentamente pelas cidades do país, pequenas ou grandes,
pobres ou ricas, capitais ou interior, para descobrir o fenômeno. Basta procurar
por um lugar muitas vezes modesto, cheio de computadores, mas sobretudo, cheio
de gente. Jovens disputando partidas coletivas de videogames, acessando o Orkut,
teclando pelo mensageiro eletrônico. Alguns não vão saber nem ler ou escrever,
mas sabem direitinho usar o Skype para bater-papo com gente que está perto ou
longe.
O que há pouco tempo era um dado percebido somente antropólogos ou cientistas
sociais, agora já aparece em estatísticas. Pesquisa recente feita pelo Comitê
Gestor da Internet apontou que 30% dos brasileiros que acessam a internet fazem
isso de lugares pagos. Esse número é maior do que aqueles que acessam a rede do
trabalho (24%), da escola (15%) ou de centros públicos gratuitos (3%). Esse
grande número de pessoas usa a internet em lugares como os cyber-cafés ou
lan-houses (a própria distinção do que é um e outro parece ter perdido sentido).
É só passear por aí para comprovar. Os donos, verdadeiros empreendedores
da inclusão digital, geralmente não se queixam do negócio. Com preços variando
de R$0,50 a R$1,50 por hora de uso do computador (seja para jogar ou acessar a
internet em banda larga), as casas permanecem cheias. Os donos até reclamam
sobre um segundo grau de "informalidade": tem gente pegando um cômodo em casa,
comprando alguns computadores e montando uma "lan-house" domiciliar. Uma
verdadeira lan-HOUSE.
Em outras comunidades carentes é possível notar que as lan-houses estão
oferecendos serviços que vão além da conexão à rede, mas passam a abranger
atividades de cidadania e governo eletrônico. Um exemplo é a declaração de
isento. Para quem não tem acesso à rede, renovação do CPF depende do
preenchimento de formulário e visita aos correios ou casas lotéricas. Pela
internet o processo é praticamente imediato. Com isso, as lan-houses passaram a
oferecer o serviço por 1 real (vide a foto acima). Outros serviços avulsos
oferecidos incluem o pagamento de contas de água, luz e telefone, impressão de
documentos, ou ainda, o envio de currículo por e-mail.
Além disso, as lan-houses estão conquistando um espaço simbólico peculiar. Para
entender isso, é só verificar uma tendência recente: muitas agora dispõem de um
espaço para festas de criança. Aniversários que antes eram comemorados no
McDonalds, com sanduíche para todo mundo, agora estão migrando para as
lan-houses. O aniversariante convida os amiguinhos e a festa acontece com uso do
computador liberado para todos os convidados. É sempre um sucesso e a animação
da festa é inacreditável. Poucos são os espaços de sociabilidade tão intensa no
Brasil quanto as lan-houses. Esqueça o senso comum, que ainda insiste em
enxergá-las como locais de isolamento e solidão.
Três alertas sobre esse fenômeno, que está levando a internet para periferias de
todo o Brasil: autoridades de todo o Brasil, deixem as lan-houses em paz. Poucas
vezes se viu um fenômeno de empreendedorismo popular tão importante quanto esse.
Parabéns ao programa do "computador popular", responsável em parte por isso. Mas
por favor, não as perturbem.
O segundo alerta é que existe um potencial de cidadania nas lan-houses ainda
inexplorado. O horário da manhã é sempre pouco ocupado, já que a criançada está
na escola. Ao mesmo tempo, as comunidades estão sempre perguntando se não há
"cursos" oferecidos pelas lan-houses. Não custa pensar em idéias não-intrusivas,
que não atrapalhem o modelo de negócios das lan-houses, mas que explorem esse
potencial cidadão, aumentando sua ocupação pela manhã.
Preparem as lan-houses para nossos cursos !
Por fim, já estava na hora
mesmo de todo mundo começar a entender que os deficientes visuais podem
desempenhar um papel crucial em qualquer programa de inclusão social. É preciso
deixar o preconceito de lado e finalmente perceber que eles podem ser
responsáveis por ensinar habilidades fundamentais para esse novo século. Nas Lan
Houses eles podem desenvolver muito !!! Por exemplo, capacidade de detalhes,
habilidade sensitiva para trabalhar em detalhes, pensamento estratégico e
planejamento da Lan House. Sem essas habilidades, ninguém vai muito longe na
vida contemporânea de modo geral.
Autor:
Roberto Cysne, PhD